Onde Fica

A rua não tranca mais segredos. Escancara dentes de néon, exibe tripas de pobreza. A cidade de espelhos clama por sua própria visibilidade e, assim, torna-se invisível. Se todos os seus elementos estão expostos, gritando por um olhar, o diverso ou o novo perdem a potência de propiciar choque. A imprevisibilidade, na luz, na pobreza, na cor, na sujeira ou na violência, passa para o campo do provável, pois a metrópole só pode ser domada pela constante previsão do descontrole. Calcula-se o inesperado mediante a mera constatação do existente (há o assalto), para que se possa estar sempre à frente do choque (fechar a janela do carro). Todo o estranhamento potencial é aplacado pelo choque banalizado. De costas para a história das coisas, o passante olha sempre para frente, atrás, a montanha de ruínas se aglomera, e não há tempo para que sejam percebidas, pois devem ser constantemente constatadas.

Na cidade em duas dimensões de Onde Fica, o tempo está paralisado, o espaço da arte, a galeria, convida a um olhar para trás. A imagem apresentada é a da cidade em ruínas, nela apresentam-se os sólidos pilares da economia flexível: a puta, a puta virtual do outdoor, o ambulante e o mendigo. O lixo e a sujeira são restos mas também pressupostos. O muro e a grade, gratuitos, não defendem, atacam. As pessoas são sombras e as coisas são vivas.

As contradições da cidade se mostram abertas em um espaço passível de sentido, isto porque a imagem apresentada pela exposição habita o mundo da arte, o mundo no qual a mediação da reflexão está pressuposta.

Porém Onde Fica não se fecha nesse espaço, há um movimento na composição que leva a imagem para fora do vidro. Para além do jogo de reflexos entre a rua e a galeria, a exposição, baseada em elementos gráficos, acena com a linguagem veloz própria da cidade. A imagem apresentada pelo Esqueleto Coletivo exige uma exteriorização de sentido. Se a rua pudesse ser vista como obra de arte não seria aleatória ou natural, seria resultado de intenções, obra humana. Mais do que é, ela apresentaria o que pode vir a ser. Mas para a cidade ser observada basta um pequeno gesto, um deter-se e um olhar para trás. Afinal, a cidade pode não ser arte, mas é obra.

Silvia Viana – Socióloga

[referência para Onde Fica, imagens LucianaCMCosta]

[fachada da exposição, “invadindo” a calçada da Av. Paulista]

Festival de Performances

[Tulio Tavares]

[Alexandre Ruger e Esqueleto Coletivo]

[Rodrigo Araújo]

[Esqueleto Coletivo]

[Ricardo Ramalho]

[Zaratruta]

[Grupo Braço]

[Christiana Moraes e André Nunes]

Outros artistas que participaram da exposição: Eduardo Jorge e revista Gazua, Érica Zíngano, Gavin Adams, Horizonte Nômade, Laerte Ramos, Paulo Hartman, Renan Costa Lima e Vitor César.

Galeria SESC Paulista, 2004

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Uma resposta to “Onde Fica”

  1. TRANSITORIAMENTE CIDADE À REVELIA « 1000 e 1 notas: érica zíngano Says:

    […] de arte Esqueleto Coletivo organizou, no SESC. Av. Paulista, a exposição coletiva Onde Fica. Uma das coisas legais da exposição foi a montagem, porque os trabalhos se misturavam, […]

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